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Artigo: O velho capitalismo reconcilou-se com sua natureza

  • IMPRENSA
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  • JUL 2020
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  • 104

por Luiz Gonzaga Belluzzo

 

 

 

 

Em 2015, os economistas Joseph W. Gruber e Steve Kamin, assessores do Board do Federal Reserve, publicaram The Corporate Saving Glut in the Aftermath of the Global Financial Crisis. Em março do corrente ano, a pandemia já em curso, os economistas Atif Mian, Ludwig Straub e Amir Sufi juntaram as forças de Princeton, Harvard e Chicago para publicar o artigo The Saving Glut of the Rich and the Rise in Household Debt.

Os dois textos perseguem o entendimento das transformações que afetaram a dinâmica das economias capitalistas nas últimas décadas. A preocupação central dos autores de ambos os artigos está concentrada no aumento da “poupança” dos ricos descolada do crescimento do investimento.

“What is Wrong with Capitalism?”, indagaram os editores do Project Syndicate. No site desfilam figuras do andar de cima da opinião econômica. Entre os escalados para desvendar os erros do capitalismo estavam, entre outros, Joseph Stiglitz, Mariana Mazzucato, Yanis Varoufakis e Raghuran Rajan.

Ao responder que não há nada errado, assumo um risco nada desprezível. Em minha modesta opinião, depois de libertado das disciplinas e amarras sociais que o domesticaram nos 30 Anos Gloriosos do imediato pós-guerra, o velho capitalismo reconciliou-se com sua natureza. Rapidamente transmutou a concorrência perfeita em concorrência monopolista e, na mesma toada, impulsionou o enriquecimento financeiro em detrimento daquele decorrente do esforço produtivo.

Em artigo recente, publicado na Review of Political Economy, o economista Cedric Durant identifica quatro narrativas que procuram explicar o “paradoxo”: enquanto os lucros das grandes empresas disparam, o investimento “produtivo” desaba.

As duas primeiras narrativas estão ligadas mais diretamente ao processo de financeirização: 1) a vingança dos rentistas obriga as empresas a realizarem pagamentos para os detentores de títulos de dívida e direitos de propriedade, o que reduz os recursos disponíveis para o investimento industrial; 2) a segunda narrativa sugere a substituição dos investimentos em ativos reais pela acumulação financeira de curto prazo. O declínio das taxas de juros propiciou o avanço dos pagamentos de dividendos exigidos pelos acionistas. A isso se juntam as recompensas aos mesmos acionistas por ocasião das fusões e aquisições, além da recorrente e cada vez mais intensa recompra das próprias ações.

A terceira narrativa aborda os impactos da globalização. As empresas dos países industrializados transferem os investimentos para as regiões de baixos custos da mão-de-obra às expensas do investimento nos países de origem. A quarta narrativa propõe estabelecer uma forte ligação entre a crescente concentração e centralização do controle das empresas, a monopolização dos mercados e a estagnação dos investimentos. As quatro narrativas são dimensões particulares de um Universo em movimento.

As teorias econômicas convencionais estão encharcadas de indagações binárias do tipo “é isto ou aquilo?”. Peço ao leitor que permita ao economista invocar um filósofo da estatura de Hegel para arrostar esse viés metodológico. Na Introdução à Ciência da Lógica o mestre de Iena asseverou:

“Quando as formas são tomadas como determinações fixas e consequentemente em sua separação uma da outra – e não como uma unidade orgânica –, elas são formas mortas e o espírito que anima sua vida, a unidade concreta não reside nelas… O conteúdo das formas lógicas nada mais é senão o fundamento sólido e concreto dessas determinações abstratas; e o ser substancial dessas abstrações é usualmente buscado fora delas.”

Prossigo em minha ousadia para sublinhar o trecho “em sua separação uma da outra, e não como uma unidade orgânica, elas são formas mortas e o espírito que anima sua vida, a unidade concreta não reside nelas”. Não por acaso, em sua caminhada para romper com a economia clássica, Keynes jamais pronunciou a palavra macroeconomia. Para os epígonos, macro se contrapõe a micro. Macro é a agregação das múltiplas instâncias micro protagonizadas pela ação dos indivíduos racionais e otimizadores.

A Economia Monetária da Produção de Keynes é concebida como um conjunto de relações entre classes sociais, definidas a partir de suas conexões no metabolismo econômico do capitalismo. Aqui vou sublinhar a palavra “relações”. Isto significa que não se trata de “isso ou aquilo”, mas de “isso e aquilo”. As relações entre as formas particulares movem-se conforme “o espírito que anima sua vida”.

Nos textos preparatórios da Teoria Geral, Keynes revela o espírito que anima a vida do seu capitalismo: “A organização da sociedade consistindo, de um lado, em um número de firmas ou empreendedores que possuem equipamento de capital e comando sobre os recursos sob a forma de dinheiro, e de outro, em um número de trabalhadores buscando emprego. Se a firma decide empregar trabalhadores para usar o equipamento de capital e gerar um produto, ela deve ter suficiente comando sobre o dinheiro para pagar os salários e as matérias primas que adquire de outras firmas durante o período de produção, até o momento em que o produto seja convenientemente vendido por dinheiro”.

Ao acumular riqueza monetária, os que possuem e comandam os meios de produção e o dinheiro realizam os desígnios do “espírito que anima sua vida”. Nada “errado” se a valorização da riqueza financeira assume o comando do movimento das “economias reais”. Tudo certo.

Como dizia Hegel: “o botão desaparece no desabrochar da flor, e poderia dizer-se que a flor o refuta; do mesmo modo que o fruto faz a flor parecer um falso ser-aí da planta, pondo-se como sua verdade em lugar da flor: essas formas não só se distinguem, mas também se repelem como incompatíveis entre si. Porém, ao mesmo tempo, sua natureza fluida faz delas momentos da unidade orgânica, na qual, longe de se contradizerem, todos são igualmente necessários. É essa igual necessidade que constitui unicamente a vida do todo… Com efeito, a Coisa mesma não se esgota em seu fim, mas em sua atualização; nem o resultado é o todo efetivo, mas, sim, o resultado junto com o seu vir-a-ser”.

O Velho Capitalismo realiza o seu conceito no vir-a-ser de suas engrenagens tecnológicas e financeiras.

 

* Luiz Gonzaga Belluzzo é economista e professor

 

 

Fonte: Portal Vermelho

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